A papisa da moda, Costanza Pascolato, aos 80 anos, acaba de lançar seu quinto livro – A Elegância do Agora –, em que resgata memórias familiares e amorosas, e outros momentos decisivos de sua vida

Quem vê Costanza Pascolato sempre impecável – na maioria das vezes com roupas pretas e com seus inseparáveis óculos de lentes dégradé –, não imagina o tanto de obstáculos que ela teve de vencer na vida. Italiana de Siena, veio para o Brasil ainda muito jovem, quando seus pais decidiram fugir da Segunda Guerra Mundial. Quando adulta, foi deserdada pelo pai ao se separar de Robert Blocker (pai de suas duas filhas, com quem esteve casada por 10 anos) para morar com Giulio Cattaneo della Volta (com quem ficou casada durante 19 anos). Costanza também lutou contra dois cânceres de mama. E venceu essas batalhas! Esses são alguns episódios que ela conta em seu novo livro A Elegância do Agora, lançado pela editora Tordesilhas. Colunista de uma conceituada revista de moda há 27 anos, consultora da H. Stern e da Tecelagem Santaconstancia, fundada por sua família, nesta entrevista exclusiva, Costanza fala sobre os grandes desafios da sua vida, elegância e, claro, a entrada das blogueiras no mundo da moda.

‘(…) Tenho consciência de que cada coisa, agradável ou não, por que passei foi importante para me fazer pensar, sobreviver, amadurecer e até aprender sobre mim mesma. Hoje, com 80 anos, não perco mais tempo com bobagens e curto a vida como quero e mereço.’

 

GW: Seus pais fundaram a Santaconstancia alguns anos depois de chegarem ao Brasil, quando você ainda era criança. Acha que ter crescido entre os tecidos influenciou sua paixão pela moda?
CP: Sem dúvidas! Viver em uma indústria de tecidos desde pequena e ter acompanhado minha mãe nos desfiles de alta-costura, aqui e no exterior, fez com que me interessasse por moda, sim. Na minha casa, as pessoas sempre se vestiram bem, se interessavam e se preocupavam com o corte das roupas, a procedência do tecido, o acabamento e outros detalhes. Naquela época, a maneira como você se vestia dizia muito sobre sua personalidade e sua profissão.

GW: Hoje, qual sua participação na tecelagem?
CP: Sou consultora de estilo, então, sempre que lançamos alguma coleção – são quatro por ano –, monto a cartela de cores. E isso demanda bastante tempo porque, atualmente, a moda muda com muita rapidez, são muitas propostas e sempre precisamos estar à frente.

GW: Quando decidiu que iria transformar sua paixão por moda em profissão?
CP: Não lembro ao certo quando descobri que queria fazer dessa paixão minha profissão. Na verdade, acho que já nasci com um olhar diferenciado para tudo que é ligado a moda, arte, cinema. Quando resolvi que queria trabalhar, comecei a me questionar sobre o que queria e o que iria fazer. O Roberto Civita – padrinho do meu casamento com o pai das minhas filhas –, era diretor da Editora Abril e estava iniciando as revistas de moda aqui no Brasil. Ele sugeriu que eu fosse produtora de moda das revistas porque eu entendia de prêt-à-porter, indústria que estava começando. Sempre fui editora de moda para revistas e presto consultoria. Tenho a sorte de, ainda hoje, poder exercer esse trabalho que amo para várias empresas.

aGW: Você é um dos maiores ícones de elegância no Brasil. Mas, afinal, o que é ser elegante?

CP: Fico gratíssima por me considerarem elegante aos 80 anos. A elegância é uma estética de incomum eficácia e simplicidade. Tanto na arte quanto na arquitetura, a elegância é, frequentemente, utilizada como padrão de bom gosto e sugere maturidade. Uma pessoa elegante é também comedida e cortês. Ela demonstra isso sendo amável e respeitosa com todos que estiverem à sua volta. Ela se comunica com clareza e mantém a compostura em qualquer situação. Uma pessoa elegante cuida da aparência, reservando um tempo para se arrumar. Sempre estive cercada de pessoas elegantes em casa, e não só mulheres. Meu pai, Michele, e meus dois maridos, Roberto e Giulio, sempre foram elegantes. O triste é que hoje elegância e etiqueta são consideradas démodé.

GW: Você, normalmente, está com roupas pretas e óculos escuros com lentes dégradé. Por que esse estilo?

CP: Eu amo o preto, esconde imperfeições, me deixa mais magra. Dizem que é a cor dos tímidos, e eu já fui bastante. Comecei a usar, quase que radicalmente, nos anos 80, quando era a cor dos fashionistas. E tem mais uma vantagem: você pode repetir as peças sem se sentir usando sempre a mesma roupa. É uma cor – ou não cor – que combina com todas as outras. Os óculos, por sua vez, se tornaram o meu acessório mais importante. Além de não enxergar, tenho fotofobia, por isso as lentes dégradé. E, como digo no livro, os óculos são um complemento da sua personalidade, são os acessórios da moda mais baratos e que mais mudam você.

GW: Nesses mais de 50 anos trabalhando com moda, quais as mudanças mais importantes que destacaria?

CP: Sem dúvida foi o evento do digital. A internet mudou e ainda mudará tudo, além de acelerar os tempos. É um processo irreversível que, como tudo na vida, tem o lado bom e o lado ruim. O bom é que as pessoas têm mais acesso às informações, mas, ao mesmo tempo, há o exagero de lançamentos. Praticamente todo dia há uma novidade e isso acaba incentivando um consumo que, muitas vezes, não é verdadeiramente necessário.

GW: Mas as pessoas estão valorizando mais o consumo consciente…

CP: Acho importante saber a origem da roupa e das matérias-primas. Ouvimos muito falar em trabalho escravo, em produtos biodegradáveis que preservam o meio ambiente. A Santaconstancia tem fabricado tecidos que levam em conta o que é sustentável. Isso sempre foi uma das preocupações de meu irmão, Alessandro Pascolato, e de seus filhos, Luca e Gabriella, que hoje dirigem a empresa. Essa consciência é indispensável.

GW: Roupas de grife ainda são sinônimo de elegância?

CP: Dá para andar bem-vestido com roupas nem tão caras. Basta escolher com cuidado, sempre pensando com
consciência e, claro, baseando-se no seu próprio estilo.

GW: Quem destacaria como um ícone de elegância?

CP: A Fernanda Montenegro. Além de sempre estar com roupas impecáveis, tem um corpo ótimo. Uma vez li que ela disse que seu corpo é instrumento da comunicação, e sabemos que dedicou sua vida inteira à uma profissão não superficial. Não há elegância sem conteúdo, só estar bem-vestida não funciona.

GW: O que acha do movimento das blogueiras, que se transformaram em grandes influenciadoras de moda?

CP: As mulheres sempre procuraram se mirar em alguém que admiram. Antes eram as atrizes, e hoje as blogueiras blogueiras ocupam esse espaço. Elas são mais didáticas, ensinam inúmeras pequenas coisas que interessam. As melhores entre elas estão sempre com seu discurso atualizado, com o dedo pousado no pulso da atualidade, porque os tempos correm e a tecnologia muda. E imagino que muitas continuarão
a atender a curiosidade das seguidoras.

GW: Você acabou de completar 80 anos e de lançar seu quinto livro: A Elegância do Agora. Ele é uma espécie de biografia para celebrar essa data especial?

CP: A Elegância do Agora não é uma biografia. É uma atualização das coisas em que acredito, e que mudaram nesses últimos e tumultuados tempos. É também um teaser para o livro de minhas filhas, Alessandra e Consuelo Blocker – O Fio da Trama, que será lançado em novembro –, que é um conjunto de biografias bem intimistas das mulheres de casa: Dona Gabriella, minha mãe; eu e minhas duas filhas.

GW: No livro, você conta várias passagens importantes da sua vida, como o fato de ter sido deserdada pelo seu pai depois de deixar o Robert  Blocker para morar com o Giulio Cattaneo della Volta, e ter perdido a guarda de suas filhas por  quatro anos. Como conseguiu superar tudo isso? 

CP: Foram coisas difíceis. Eu tive atitudes até meio irresponsáveis na época, talvez por falta de maturidade. Mas prefiro pensar no agora.  Minhas filhas, que amo, estão bem na vida e sentimentalmente. Além disso, tive a felicidade  incrível de ter o Cosimo e a Allegra como netos. Eles são demais!

GW: Você também conta que sofreu bullying profissional…

CP: Acho que entrei em um mundo que realmente não co- nhecia. Tinha 34 anos e tive que recomeçar bem do comecinho, mas não me arrependo. Eu tinha uma imagem de dondoca, eram os anos 70. Mas esse esforço maior para conseguir avançar e superar os obstáculos me fez crescer.

GW: E para finalizar: se pudesse, mudaria algo na sua trajetória?

CP: Nada. Hoje tenho consciência de que cada coisa, agra- dável ou não, por que passei foi importante para me fa- zer pensar, sobreviver, amadurecer e até aprender sobre mim mesma. Hoje, com 80 anos, não perco mais tempo com bobagens e curto a vida como quero e mereço.

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