A cidade de Xangai, localizada na Grande Baía chinesa, tem uma longa e rica história. Foi um vilarejo de pesca durante centenas de anos até ganhar relevância no século 19, quando passou a abrigar um dos principais portos da região. Floresceu por causa do comércio, mas foi perdendo prestígio a partir da década de 1940, após a Segunda Guerra Sino-Japonesa. Só retomou o rápido desenvolvimento nos anos 1990, com as reformas econômicas colocadas em prática por Deng Xiaoping. E agora, poucas décadas depois, se tornou uma das capitais mundiais do luxo.

Neste ano, Xangai superou Hong Kong e ocupa agora a liderança no ranking das cidades mais caras do mundo para se viver, de acordo com um estudo sobre estilos de vida luxuosos feito pelo Julius Baer Group, banco suíço especializado na gestão de patrimônio. Além disso, a cidade ocupa hoje a sexta maior concentração de bilionários do mundo, de acordo com a Forbes. No ano passado, estava na 18ª posição.

Com tanta riqueza disponível, é natural que algumas das maiores empresas do setor de luxo estejam interessadas em marcar presença na cidade. É o caso da gigante francesa de cosméticos L’Oréal que abriu, em maio, sua primeira loja-conceito em território chinês justamente em Xangai. Usando tecnologia, a proposta é mesclar as culturas francesa e chinesa em um ambiente multimídia. Cada visitante é reconhecido por meio de sua conta na rede social WeChat, o que garante um atendimento personalizado. Antes da L’Oréal, a japonesa Shiseido, uma das mais antigas e tradicionais empresas de cosméticos do mundo, escolheu a cidade para abrigar seu primeiro hub de inovação em beleza fora do Japão. O espaço foi inaugurado em janeiro de 2020, em uma parceria com a WeWork.

Ambas estão de olho no potencial do mercado de beleza chinês, o segundo maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Atualmente avaliado em US$ 38,6 bilhões, pode superar os US$ 87 bilhões até 2025. Mas está longe de ser o único segmento a despertar a atenção do mercado ocidental de luxo.

Xangai já tem representantes das principais grifes, de nomes tradicionais como a Ermenegildo Zegna a novatas como a ENG, loja-conceito multimarca que oferece design futurista e uma seleção de nomes menos badalados, mas capazes de atrair a atenção da Geração Z, como a francesa Ludovic de Saint Sernin, conhecida pelas roupas agênero. Até a holding LVMH, dona de Louis Vuitton, Marc Jacobs e Fendi, entre outras, anunciou a construção de um hub de e-commerce na cidade. Com um investimento inicial de US$ 154 milhões, a central ficará pronta até o final de 2022.

A gastronomia local também vem ganhando destaque. A edição 2021 do Guia Michelin dedicado à cidade lista 43 restaurantes estrelados, além de outros 82 estabelecimentos recomendados pelos avaliadores. O Ultraviolet, único com três estrelas, oferece somente uma mesa com dez lugares, menu degustação de 20 tempos e uma experiência sensorial que inclui luzes, aromas e projeções em vídeo — além da comida, é claro, assinada pelo chef Paul Pairet. O preço chega a US$ 860, por pessoa.

PADRÃO ELEVADO A recuperação econômica mais rápida após o baque inicial causado pela pandemia tem papel nessa pujança. Mas as mudanças de comportamento que provocam essa busca por artigos de luxo são mais profundas. “Há uma questão muito mais estrutural do que conjuntural de forte elevação do padrão de vida, o que contribuiu para uma sociedade mais rica e desigual”, disse Livio Ribeiro, pesquisador sênior de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. “Criam-se bolsões de riqueza, como Xangai, e também Shenzhen e Guangzhou, em que o enriquecimento gera uma demanda por bens de consumo de alto padrão”, afirmou. Os ricos representam 10% da população. Mas como tudo na China é superlativo, isso significa 130 milhões de pessoas. Com esses números, o interesse das empresas do segmento fica ainda mais claro.

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